Nova data da CONVERSA COM OS ARTISTAS:

21/01/2011, 19h

local Nucleo de Estudos da Fotografia

  Conselheiro Araujo, 315 Curitiba/PR

Viver na cidade contemporânea: o tecido e o tecer urbanos

Que é isso de viver em um ambiente que é repetição, resultado da industrialização das formas de produção e mecanização dos corpos no ritmo cotidiano? Os ambientes nos quais se vivem são ambientes de subjetivação. Está-se, acima da mecanização dos corpos pela repetição dos horários e tarefas, sob processos de realidade exigidos pelo tempo no dia-a-dia dos ambientes: transversalidades subjetivas que se encontram em pontos que perpassam a realização das tarefas do cotidiano, mesmo que essas tarefas sejam a efetuação do ócio de lazer e consumo.

Primeiramente, podemos nos perguntar que pontos são esses que escapam às necessidades de realização de um trabalho fabril, ou circunscrito às necessidades organizativas do mundo industrial, como empresas de serviços, contabilidade, administração, etc.? Sem dúvida são pontos que estão deliberadamente nos trajetos entre a casa e o trabalho, o trabalho e a casa. Os três espaços constituem o habitat, o ambiente onde existimos em afeto com as coisas. A realidade é uma exigência do dia-a-dia que nos coloca entre o impossível e o necessário. É necessário que a água molhe e que o fogo queime. Poderíamos dizer então que é impossível que a água queime e que o fogo molhe. Na própria palavra fogo está entendido que ele queima e associado às nossas experiências vivenciadas sob os intervalos de suas contingências. A partir disso fazemos nossa imagem de um fogo que queima. Mas que isso tem a ver com o tecido urbano? Tudo, ou tudo o que podemos chamar de realidade, asujeitados nos ambientes através dos quais realizamos trajetos. Assim, a partir das contingências latentes nos trajetos, possibilidades de nos deparar com o novo ou com o inesperado, vamos traçando nossa experiência. Se as subjetividades estão paralelas umas às outras, pela repetição, não se encontram e se não se encontram na diferença não há subjetivação além daquelas que nos levaram a realizar os trajetos da experiência que se acabam se tornando paralelas. Na prática, as rotinas tornam-se rotinas que convivem com outras rotinas, numa seqüência de subjetividades paralelas colocadas por trajetos paralelos. Mesmo que hajam encontros, eles são encontros justapostos pela repetição, não havendo subjetivação, apenas repetição de subjetividades. É claro que uma interferência externa nos trajetos pode desalinhar o habitat formado pelas justaposições das cidades industriais. Um apagão, também como metáfora da decadência, pode revelar o imenso recalque por provocar ausência da experiência demarcada e pela frustração frente às exigências de sucesso, e frustação frente às imagens de sucesso. O excesso de luz (ainda mais luz que é simulacro) cega. Aquilo que não se vê quando há tanta energia incidindo pode vir à tona no silêncio e na escuridão, aquilo que é omitido nas estruturas de funcionamento do mercado brota como abandono, como escória necessária na sua lógica.

Fordlândia/PA, 2010 - Foto: Luana Navarro.

Fordlândia e Rio Tapajós/PA, 2010 – Luana Navarro

Práticas do espaço

Mas é a própria realidade quem exige a transversalidade de subjetivação, ou a transversalidade dos encontros na experiência. No acontecimento da repetição há diferenças, sim, singularidades irredutíveis que podem nos levar ou não a outras imagens, outros espaços, inventados, ou abandonados, pela necessidade. Aquilo que fazemos nas idas e vindas aos lugares necessários para viver na cidade compõe uma prática. A prática do deslocamento no ambiente urbano. Na cidade, tudo está programado para funcionar. Mais do que isso, para funcionar de maneira privada, individual. A organização dos espaços é dada pela potencialidade de consumo individual. Sem abertura à espontaneidade dos acasos e sem os processos de subjetivação dados pela experiência não demarcada, mas dados pelas imagens possíveis da experiência, a própria experiência acaba por ser vendida como mercadoria. Consumimos nossa experiência, ao invés de vivenciá-la. Sem ser dono da distribuição de seu tempo, o viver acaba se vinculando ao consumo dados pelas energias disponíveis, materializadas nos ditos bens de consumo, virtuais ou não. Delegando a vida às imagens de vida, esquecemos que temos um espaço mais amplo a encontrar. Dentro mesmo desse espaço produzido encontramos a diferença, aquilo que nos lança ao fora da rotina, mas dentro das possibilidades. Poderíamos listar esse espaços possíveis, aliás, todo espaço é um espaço possível de subversão, ou de produção da diferença pela experiência. Mostrar todos os espaços de produção, como sendo espaços de produção do Mesmo, é fazer vir à tona a ansiedade em viver sob a ditadura do Mesmo, seja na TV, ou na rotina das cidades que são o contrário de Fordlândia. Isso é o desenvolvimento de uma reflexão que parte de lugares e acontecimentos numa cidade ligada ao mundo como projeto de sucesso, onde vivo. Reflexão que trabalha várias referências pelas quais falo dos processos de privatização das subjetividades na metrópole pelas repetições ad nauseum dos ideiais de vida propagados pela lógica do capital. Assim buscando ler, ou em direção a uma leitura de Fordlândia a partir de onde falo, e não de onde não vivo.

CWB, texto aberto, 2010.

Arthur do Carmo.

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