De Ford à Fordlândia

Desde que a indústria atinja uma certa importância,
o seu controle sobre a matéria–prima tem de fazer-se absoluto (…).
De que serve construir uma fábrica e planejar cuidadosamente o trabalho,
se tudo pode ser destruído mediante alguma força alheia, talvez inimiga? [1]

(Henry Ford)

Fordlândia é o emblema da existência condicionada pela economia e pelo capital;
nela, a vida perde a destinação humana. [2]

(Olgária Mattos)

Em 1927 Henry Ford, o proprietário da fábrica de carros Ford, idealizou a cidade de Fordlândia às margens do rio Tapajós, em plena floresta Amazônica. Para controlar todas as etapas de produção de carros, caminhões e tratores, da extração de matérias primas aos produtos finais, faltava para a Ford Motor Company encontrar maneiras de produzir o látex, pois ela já produzia hulha, carvão coque, couro artificial, fios de cobre, fordite, tecidos, pneus, linhos, ferro fundido, vidro (absorvendo 25% do vidro produzido nos Estados Unidos), madeira, minério de ferro e produtos de olaria. Neste período ela também possuía estradas de ferro e companhias de navegação, tudo em função da produção de automóveis, caminhões, tratores.

Fordlândia viria então completar essa cadeia produtiva com o cultivo de seringueiras e a exportação da borracha, saindo diretamente da margem direita do rio Tapajós em direção à cidade de Detroit, nos Estados Unidos. Com a extração do látex, ocorreria a centralização e concentração do capital no sentido da verticalização de atividades e controle absoluto de matéria-prima.

Henry Ford nunca esteve na cidade por ele idealizada e planejada. O medo da malária e de outras doenças da região foi apenas enfrentado por diretores e funcionários que se dispuseram a vir para o Brasil.

A cidade de Fordlândia, como aponta Elaine Lourenço[3], foi logicamente planejada e hierarquizada em vilas. Os trabalhadores viviam em casas próximas aos locais de trabalho, primeiramente feitas de sapê, em seguida do excesso do corte de madeira, dispondo de quadras de esporte e cinema. Ao lado oposto da cidade, na Vila Americana, em casas amplas e equipadas, próximas ao hospital, habitavam diretores e administradores da cidade. Suas casas eram as maiores com cozinhas e móveis planejados, piscina e alameda de mangueiras ao redor. Enquanto os brasileiros se restringiam a parte mais baixa de Fordlândia, trabalhando sempre identificados por pequenas placas sobre a roupa, tendo o lazer restrito aos finais de semana, a Vila Americana gozava de amplos campos de golfe, quadras de tênis, sorveteria, um clube exclusivo e sessões frequentes de cinema.

A mudança do nome antigo da cidade de Boa Vista para Fordlândia revela uma passagem de um território destinado a vida humanizada em sua vila para um lugar “condicionado pela econonomia e pelo capital.”[4] O que antes poderia ser construído por uma destinação humana e particular do espaço, repentinamente foi construída a partir das necessidades de funcionamento da fábrica localizada em Detroit e com um braço em Fordlândia.

O tempo da fábrica, da produção industrial e fordista, desembarcou na baía do Tapajós e colocou os caboclos diante de um novo modelo de lidar com seus corpos no tempo. Cada um dos “operários” foi colocado diante de obrigações fabris, diante de um modo de produção com o qual não estavam habituados. Anteriormente suas necessidades eram retiradas da terra em outras formas de produção e de troca. O caboclo era dono de seu tempo e de uma hora para outra era a fábrica que possuia seu tempo, seu dia de trabalho.

“Em dezembro de 1928 dois navios, Lake Ormoc e Lake Farge, depositaram em Fordlândia os componentes que estruturariam a nova cidade. Sob a direção do americano Einar Oxholm, operários brasileiros puseram-se imediatamente a trabalhar na construção daquela que iria se transformar em pouco tempo na terceira mais importante cidade da Amazônia, oferecendo aos seus habitantes hospital, escolas, água encanada, moradia, cinema, luz elétrica, porto, oficinas mecânicas, depósitos, restaurante, campo de futebol, igreja, hidrantes nas ruas, emprego.” [5]

Até hoje se encontram em Fordlândia todos os galpões e micro-usinas onde era processada a borracha extraída da região. As casas também permanecem, entretanto em estado de preservação precário. A vila americana está abandonada, apenas as mangueiras dão frutos. Tal como Benjamim aletara em relação a existência milagrosa do camundongo Mickey, também nascido de um sonho, de quem partiam todas as outras existências com as quais se relacionava, em Fodlândia as casas, as ruas, a alimentação, as roupas, tudo era criado a partir da cultura norte-americana relacionada apenas consigo mesma, em um isolamento enlatado frente ao contexto.

Conta-se que na época os trabalhadores norte-americanos tentaram introduzir novos hábitos alimentares nos caboclos da região, fazendo com que eles bebessem leite de soja, comessem hamburguer e espinafre. Deu-se então a “revolta das panelas”, manifestação dos brasileiros contra as imposições culturais que obrigou os americanos a fugirem para a floresta até a chegada do exército brasileiro. Parafraseando Camnitzer[6], podemos dizer que o que aconteceu foi (quase) um estupro cultural por meio de hamburguers e espinafres.

As histórias desse período, pela falta de diálogo entre os americanos e os caboclos, abriu espaços para fabulações sobre as verdadeiras intenções dos norte-americanos. Ainda hoje os moradores contam[7] que a Ford extraía ouro da região e carregava em túmulos de metal para dentro dos navios. Hoje a vida ordinária em Fordlândia é constituída pela memória do abandono e não da promessa:

“O que resta é a memória reavivada pelos restos, pelas sobras. Esses fragmentos podem reconstruir a memória de um tempo construído e arruinado, um tempo que não pode ser jogado na estante para segurar poeira, pois a poeira desse tempo deve ser agitada par nos ajudar a compreender o presente se olharmos para trás.” (Refabular a história a partir de restos, Alexandra Espindola)

Dentre as várias histórias que tentam explicar a falência de Fordlândia, conta-se que a principal delas teria sido os erros agronômicos com a implantação de monocultura da seringueira e o seu cultivo em terrenos acidentados, métodos esses inapropriados e alertados pelos caboclos da região. Além da descondesideração com os caboclos, que era tão visível que os navios norte-americanos ficavam atolados na margem do rio Tapajós, pois não aceitavam as indicações de navegação dadas pelos moradores da região que tentavam alertar sobre os bancos de areia que impediam a navegação em determinados pontos do rio.

Em 1934 os norte-americanos iniciaram o cultivo da seringueira em Belterra, cidade próxima a Fordlândia, também às margens do Rio Tapajós. Aparentemente a geografia do lugar oferecia melhores condições para o cultivo da seringueira. No entanto, com a queda do preço da borracha nos países asiáticos já não era mais vantajoso manter Belterra, e assim repentinamente, do mesmo modo como chegaram, o  grupo de norte-americanos abandonou a região do Tapajós. Em Fordlândia foi deixado para trás uma micro-usina de processamento de látex que conta com três galpões, maquinários de primeira linha, um hospital completamente estruturado e centenas de casas ao estilo americano.

Todos os espaços que antes serviam para a extração e produção da borracha estão cobertos de poeira. O hospital, está aos poucos desmoronando. As pessoas que vivem em Fordlândia enfrentam dificuldades em relação ao deslocamento, atendimento médico e até mesmo em relação ao dinheiro. Como a cidade não possui bancos, e a economia gira pelo recebimento de aposentadorias do Ministério da Agricultura, isto faz com que nos mercadinhos e padarias locais não haja circulação da moeda, pois as compras são feitas nas cidades em que eles recebem as pensões, o que criou uma cultura do pagamento fiado. Os jovens assim que atingem a idade adulta mudam-se para cidades próximas como Itaituba e Santarém em busca de trabalho.  A cada ano a população diminui.

Neste contexto, nos propomos a incluir e unir nossos gestos aos dos moradores de Fordlândia na tentativa de realizar uma leitura de mundo que torne visíveis as relações sociais construídas neste território. Acreditamos tal como afirma Basbaum e Coimbra que:

“A cultura como paisagem não-natural configura o território em que se move o artista: sua ação transforma-se numa intervenção precisa ao mobilizar instabilidades do campo cultural (regiões da cultura que permitem problematizações, conflitos, paradoxos), por meio de uma inteligência plástica que torna visível uma rede de relações entre múltiplos pontos de oposição, na qual o trabalho de arte é um dispositivo de processamento simultâneo e ininterrupto, e nunca uma representação dessas relações.”[8]


[1] FORD, Henry; CROWTHER, Samuel, s/d, apud, COSTA, Francisco de Assis, Grande Capital e agricultura na Amazônia: a experiência da Ford no Tapajós. Belém, Universidade Federal do Pará, 1993, p.59

 

[2] MATTOS,  Olgária. Fordlândia: desindustrialização e crítica do presente. Crítica. Revista Carta Maior. Coluna Debate Aberto. 26/09/2009. Disponível em <http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=4441&gt;

[3] LOURENÇO, Elaine. Americanos e caboclos: encontros e desencontros em Fordlândia e Belterra-PA. Dissertação de mestrado, apresentada ao programa de Pós-Graduação em Geografia Humana – FFLCH – USP, 1999, p.118-9.  Enviada por correio eletrônico pela própria autora em 15/04/2010.

[4] Mattos, Olgária. Op. Cit, idem.

[5] SENA, Cristovam. Fordlândia – Breve Relato da Presença Americana na Amazônia. Reportagem. 06/05/2009. Disponível em http://www.conexaooeste.com.br/index.php?exibe=reportagens&id=28. Último acesso em 28/08/2010.

[6] CAMINITZER, Luis. Arte contemporânea colonial (1970), in Escritos de artistas: anos 60/70. Organização e comentários: Glória Ferreira e Cecília Cotrim. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2006, p. 267.

[7] Em depoimento aos artistas Luana Navarro e Arthur do Carmo que visitaram Fordlândia em fevereiro de 2010.

[8] BASBAUM, Ricardo; COIMBRA, Eduardo. Tornando visível a arte contemporânea. Em Ricardo Basbaum (org.). Arte Contemporânea Brasileira: texturas, dicções, ficções, estratégias. Rio de Janeiro: Rios Ambiciosos, 2001, p. 374.

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